
A metafísica sexual do chicote
A coisa que eu mais amo depois de ser elogiada é ser humilhada.
Ele entra subitamente pela porta em meio a uma nuvem de gelo seco. Coroa de abacaxi na cabeça só para dar um aspecto tropical. Ele se aproxima, me amarra e começa a me chicotear:
“Isso é para você largar de ser Fulgência, sua vagabunda!”.
“Eu nunca fui Fulgência” replico, mas já é tarde e não tenho mais argumentos. Estou nua. Completamente amarrada, incapaz de oferece qualquer resistência. Posso apenas sentir o cheiro de meu próprio corpo. Sou presa ao tronco com cordas feitas para amarrar transatlânticos no cais. Embora saiba que toda resistência é vã, o brilho de orgulho continua a cintilar nos meus olhos amendoados. Até que num instante escuto o silvo do chicote rasgando o ar. Retorço ao sentir o couro queimando minha pele delicada. Cada golpe é um novo gemido.
A carne se dilui na dor. As dores se acumulam no tempo. Novas chicotadas. A bunda são dunas vermelhas. Meu corpo nu, totalmente exposto, totalmente entregue aos caprichos de um outro animal, animal homem. Presa, a mercê de seu gosto, nunca me senti tão livre.
Toda a minha sensualidade é vã? Imagino que a qualquer momento ele vai parar e irá aplacar meu sofrimento com a dureza de seu membro. Os devaneios aparecem em flashes. Sinto umedecer minha bocetinha, começo a fazer movimentos sensuais com meu quadril, de forma a interromper o suplício, incendiando nele o desejo. Mas a esperança se vai depois de já não sei quanto tempo. Dor, nova dor, dores sem fim. Dor, dor, dor. Sinto que vou explodir, mas isso não acontece. Retenho a dor mordendo os lábios inferiores, segurando o desespero, travando os maxilares, arqueando a coluna. Meus olhos úmidos já não podem conter. Lágrimas saem de meus olhos como um rio de pérolas líquidas, escorregando pelas minhas faces, rolando pelos meus seios. Penso em outra coisa. Mas o mundo, o universo são aquelas chicotadas, o couro do chicote sibilando, estalando em minha pele, estrelando minha consciência, formando constelações de sofrimento.
Resisto. Mas a dor emana pelos poros. Agora se escuta um gemido diferente, um gemido que simplesmente sai. Já não tenho orgulho, já não tenho medo. Sou apenas uma máquina do sexo feminino, que responde com um gemido a cada chicotada. Já não tenho alma, tenho apenas um pouco de superfície: vai das costas do meu joelho, subindo pelas curvas de minhas coxas, passando pela bunda, até alcançar o estreito da cintura. Eis toda minha existência. O único mistério do universo é aonde a próxima chicotada irá pegar. Na bunda? Na cintura? Algumas acertam o ventre. Gemo, jogando meu corpo de um lado para o outro, como se assim eu pudesse me esquivar do destino. As cordas que atam minhas mãos ao tronco dos escravos é todo o peso metafísico do mundo. Minha cintura, anos de academia, para isso? Isso o quê? Não penso, apenas espero contorcendo, já sem forças, o próximo estalo. Meu corpo se retrai, sinto febre, tudo é fogo, tudo é lava.
Grito e me contorço, louca, já não agüento mais. Desespero. Não quero mais, pára com tudo isso. Escutem seus desgraçados: é um gemido, é um grito, é a voz de quem já não agüenta mais e luta contra a corda, contra o mundo. Grita na vã esperança de que o grito sobrepuje a dor. Volto meu pescoço para trás e, com o último pingo de sanidade busco os olhos do carrasco. E lá está ele, olhando impiedoso para as partes do corpo que lhe interessam. Lá está ele, nu, coroa de abacaxi na cabeça para dar um ar tropical. Um riso maligno e as expressões tranqüilas no olhar, saboreando meus gemidos com tanta naturalidade como uma criança tomando um copo de leite. Lá está ele, ignorando meu olhar suplicante, a jorrar lágrimas, gritando. Tudo isso é música para ele, uma música dionisíaca, refinada e rara, capaz de vibrar cada fibra de seu ser. A beleza dos traços de minha face desfigurada pela dor não lhe diz respeito, é apenas um tempero à sensualidade de meu corpo.
Irritado com a ousadia de minha atitude, a próxima chicotada vem com força descomunal. Olho agora para os céus. Amaldiçôo Deus e o Diabo, talvez meu corpo seja apenas sangue e argila. Um universo explodindo em dor. Fervendo, grito com toda potência que me resta. Amaldiçôo o carrasco. Mas ele não entende a minha língua, ele, eternamente estrangeiro a tudo que não lhe interessa. Minha energia, minha esperança são apenas lágrimas no chão empoeirado, dizendo que a matéria inorgânica é indiferente a tudo. Suplico a piedade com a linguagem dos animais, gemendo o gemido mais gemido que já existiu, para irradiar toda a sofrimento ao algoz. A luz dos candelabros reflete a dor nos meus olhos brilhantes de lágrimas. Agonizo em meio aos soluços. Cansaço, desespero, meu desejo é morrer, sumir, tanto faz. Já não sou mais o que fui. Sou apenas uma criança a chorar, a chorar por chorar, a chorar e chorar, gemendo a cada chicotada.
Silêncio. Um pouco mais de silêncio. Sinto algo dentro de mim. O exército da salvação, com seus canhões, descendo as colinas. Do meio de um lago lunar, ondas concêntricas se expandem como vibrações de prazer, ultrapassando toda a dor. Com um pouco de força que ainda me resta vou sentido prazer. Meu corpo, pouco a pouco vai voltando a ser meu. Minha bocetinha não oferece resistência, é uma porta sem porta, fonte de prazer rítmico, animal orgástico. Depois vou sentindo minha bunda, toda em brasa, toda em dor.
Estou viva, mais do que viva, nunca me senti tão viva, inundada de dor e prazer. O ar entrar em grandes feixes, mais ainda não tenho forças para sustentar meu corpo. Não creio que terei forças para gozar. Mas o sobrenatural existe, Deus existe. Gozo tão forte que penso que vou morrer. E morro, morro de prazer. Sinto o antídoto da morte injetado em minhas entranhas. Desamarrada, despenco no chão como o bagaço de fruta. Ele se vira, abandona o chicote no chão e vai embora. Não sei...não sei... sei. Sei que durmo um sono sem sonhos.

