Santaputa

O orgasmo é a prova da existência de Deus.

7.26.2006




A metafísica sexual do chicote


A coisa que eu mais amo depois de ser elogiada é ser humilhada.

Ele entra subitamente pela porta em meio a uma nuvem de gelo seco. Coroa de abacaxi na cabeça só para dar um aspecto tropical. Ele se aproxima, me amarra e começa a me chicotear:

“Isso é para você largar de ser Fulgência, sua vagabunda!”.

“Eu nunca fui Fulgência” replico, mas já é tarde e não tenho mais argumentos. Estou nua. Completamente amarrada, incapaz de oferece qualquer resistência. Posso apenas sentir o cheiro de meu próprio corpo. Sou presa ao tronco com cordas feitas para amarrar transatlânticos no cais. Embora saiba que toda resistência é vã, o brilho de orgulho continua a cintilar nos meus olhos amendoados. Até que num instante escuto o silvo do chicote rasgando o ar. Retorço ao sentir o couro queimando minha pele delicada. Cada golpe é um novo gemido.

Primeiro começa um gemido que não quer sair, o gemido surdo da mulher orgulhosa que quer estar acima da dor que provém do corpo corrompido. Não quero dar ao carrasco o gosto de me ver sofrer. A carne contorce a cada chicotada. Sinto o couro do chicote rasgando meu corpo, gravando na pele um risco vermelho em alto relevo, cuja dor latejante permanece como um castigo sem fim. Os riscos em todas as direções se acumulam pelo meu traseiro, chegando até próximo dos seios. Sinto-me por instantes uma obra de arte abstrata, moderna, gostaria de estar em um museu, aos olhos de todos. Uma estranha arte, macabra e erótica. A beleza natural de meu corpo, com linhas rubras acompanhando suas curvas sinuosas - nunca me senti tão bela, tão sexy, tão completa. Uma nova chicotada interrompe meus devaneios. A curva do chicote por vezes serpenteia e atinge os limites do sexo, onde a pele é mais frágil e a dor mais aguda. Os primeiros gemidos sinceros vão sendo arrancados de meu ser. Desastradamente, ouso trancá-los em mim, gemendo para dentro, com o resto de orgulho que ainda me resta.

A carne se dilui na dor. As dores se acumulam no tempo. Novas chicotadas. A bunda são dunas vermelhas. Meu corpo nu, totalmente exposto, totalmente entregue aos caprichos de um outro animal, animal homem. Presa, a mercê de seu gosto, nunca me senti tão livre.

Toda a minha sensualidade é vã? Imagino que a qualquer momento ele vai parar e irá aplacar meu sofrimento com a dureza de seu membro. Os devaneios aparecem em flashes. Sinto umedecer minha bocetinha, começo a fazer movimentos sensuais com meu quadril, de forma a interromper o suplício, incendiando nele o desejo. Mas a esperança se vai depois de já não sei quanto tempo. Dor, nova dor, dores sem fim. Dor, dor, dor. Sinto que vou explodir, mas isso não acontece. Retenho a dor mordendo os lábios inferiores, segurando o desespero, travando os maxilares, arqueando a coluna. Meus olhos úmidos já não podem conter. Lágrimas saem de meus olhos como um rio de pérolas líquidas, escorregando pelas minhas faces, rolando pelos meus seios. Penso em outra coisa. Mas o mundo, o universo são aquelas chicotadas, o couro do chicote sibilando, estalando em minha pele, estrelando minha consciência, formando constelações de sofrimento.

Resisto. Mas a dor emana pelos poros. Agora se escuta um gemido diferente, um gemido que simplesmente sai. Já não tenho orgulho, já não tenho medo. Sou apenas uma máquina do sexo feminino, que responde com um gemido a cada chicotada. Já não tenho alma, tenho apenas um pouco de superfície: vai das costas do meu joelho, subindo pelas curvas de minhas coxas, passando pela bunda, até alcançar o estreito da cintura. Eis toda minha existência. O único mistério do universo é aonde a próxima chicotada irá pegar. Na bunda? Na cintura? Algumas acertam o ventre. Gemo, jogando meu corpo de um lado para o outro, como se assim eu pudesse me esquivar do destino. As cordas que atam minhas mãos ao tronco dos escravos é todo o peso metafísico do mundo. Minha cintura, anos de academia, para isso? Isso o quê? Não penso, apenas espero contorcendo, já sem forças, o próximo estalo. Meu corpo se retrai, sinto febre, tudo é fogo, tudo é lava.

Grito e me contorço, louca, já não agüento mais. Desespero. Não quero mais, pára com tudo isso. Escutem seus desgraçados: é um gemido, é um grito, é a voz de quem já não agüenta mais e luta contra a corda, contra o mundo. Grita na vã esperança de que o grito sobrepuje a dor. Volto meu pescoço para trás e, com o último pingo de sanidade busco os olhos do carrasco. E lá está ele, olhando impiedoso para as partes do corpo que lhe interessam. Lá está ele, nu, coroa de abacaxi na cabeça para dar um ar tropical. Um riso maligno e as expressões tranqüilas no olhar, saboreando meus gemidos com tanta naturalidade como uma criança tomando um copo de leite. Lá está ele, ignorando meu olhar suplicante, a jorrar lágrimas, gritando. Tudo isso é música para ele, uma música dionisíaca, refinada e rara, capaz de vibrar cada fibra de seu ser. A beleza dos traços de minha face desfigurada pela dor não lhe diz respeito, é apenas um tempero à sensualidade de meu corpo.

Irritado com a ousadia de minha atitude, a próxima chicotada vem com força descomunal. Olho agora para os céus. Amaldiçôo Deus e o Diabo, talvez meu corpo seja apenas sangue e argila. Um universo explodindo em dor. Fervendo, grito com toda potência que me resta. Amaldiçôo o carrasco. Mas ele não entende a minha língua, ele, eternamente estrangeiro a tudo que não lhe interessa. Minha energia, minha esperança são apenas lágrimas no chão empoeirado, dizendo que a matéria inorgânica é indiferente a tudo. Suplico a piedade com a linguagem dos animais, gemendo o gemido mais gemido que já existiu, para irradiar toda a sofrimento ao algoz. A luz dos candelabros reflete a dor nos meus olhos brilhantes de lágrimas. Agonizo em meio aos soluços. Cansaço, desespero, meu desejo é morrer, sumir, tanto faz. Já não sou mais o que fui. Sou apenas uma criança a chorar, a chorar por chorar, a chorar e chorar, gemendo a cada chicotada.

Já não existe carrasco, chicote, cordas, nudez, corpo, alma. Há apenas centelhas de dor borboleteando pela existência. Agora tudo é um lago do tamanho do mundo e um furo no nada, por onde a dor vai pingando. Sou a pequena gota que atravessa o furo.

A água do lago vai se evaporando. Os pingos parecem distantes, caindo em câmera lenta, com zoom, nem parece que é comigo. O vapor vai vencendo toda a liquefação. Os gemidos se passam por soluços. Os soluços se passam por água. E toda água lentamente transmuta em vapor. Sobrou apenas uma migalha de vida desfalecente, luz débil, o último instante do crepúsculo final. Sustentada apenas pelas cordas, sinto-me leve, tão leve quanto um floco de paineira planando ao sabor da brisa. Mas que cordas? Não tenho peso, não tenho forma e ninguém pode me prender a nada. Enquanto o mundo vai se esvaecendo, tudo é mais doce, pó de arco-íris caindo do céu. Vou desmaiar.

Silêncio. Um pouco mais de silêncio. Sinto algo dentro de mim. O exército da salvação, com seus canhões, descendo as colinas. Do meio de um lago lunar, ondas concêntricas se expandem como vibrações de prazer, ultrapassando toda a dor. Com um pouco de força que ainda me resta vou sentido prazer. Meu corpo, pouco a pouco vai voltando a ser meu. Minha bocetinha não oferece resistência, é uma porta sem porta, fonte de prazer rítmico, animal orgástico. Depois vou sentindo minha bunda, toda em brasa, toda em dor.

Estou viva, mais do que viva, nunca me senti tão viva, inundada de dor e prazer. O ar entrar em grandes feixes, mais ainda não tenho forças para sustentar meu corpo. Não creio que terei forças para gozar. Mas o sobrenatural existe, Deus existe. Gozo tão forte que penso que vou morrer. E morro, morro de prazer. Sinto o antídoto da morte injetado em minhas entranhas. Desamarrada, despenco no chão como o bagaço de fruta. Ele se vira, abandona o chicote no chão e vai embora. Não sei...não sei... sei. Sei que durmo um sono sem sonhos.


7.22.2006

Ensaio III

A grande conquista da razão humana nasceu em sua capacidade de premeditação. A antecipação do tempo, por onde o homem se viu capaz de planejar, de capturar a besta feroz e saborear sua carne preparada na brasa e no sal. Eis o berço da razão, o desejo de conquista, desejo este que teve o seu pólo invertido pelo mais horrendo dos homens, com sua cabeça chata de cearense: Sócrates inverteu o sentido do desejo, tirando-o do mundo para enfiá-lo no próprio...não, não, sou uma alma educada. “Conhece-te a ti mesmo”, afirmava o “homem o mais sábio dos homens”, o mesmo que afirmava nada saber.


Da faculdade divina de antecipar o tempo e sustentar essa antecipação na consciência, nossos ancestrais se regalaram com suas presas e mostraram a superioridade de sua raça às demais criaturas da terra, da água e do ar. Mas da magnífica faculdade surgiu o pior dos males, a consciência da morte e a premeditação da dor. A morte, esse vazio incerto que impele aos que nele ocupam o pensamento aos mais terrível amargor: “A vantagem de morrer é não mais morrer”. Ora, é áspero ver a completa nulidade da vida. Mas esta nem sempre é um mal em si: deste veneno alguns céticos extraíram o elixir do esquecimento e deles se embebedaram, a tal ponto que se lançam pelas corredeiras da vida, sorrindo do grande abismo o que espera.


Todos nós sabemos que o cristianismo é uma resposta a esse vazio original, resposta não puramente abstrata, posto que este credo não se resume ao conceito, mas principalmente diz respeito a uma práxis. Observa-se o fato muito nitidamente no Evangelho de São Marcos, cujas páginas, se delas limparmos as poeiras que obscurecem suas letras, revelam um Cristo dotado de pouca eloqüência, mas muita ação. É neste evangelho que observamos de forma mais pura aquilo que Jesus fez. Conhecemo-lo aqui pelos seus atos, e neles já se encontra a sua verdade. Não é por outra razão que em outro evangelista, São Mateus, Cristo responde com silêncio à ardilosa questão dirigida por aquele romano treinado no jogo retórico ensinado em Roma por gregos salafrários. Quid est Veritas? Pergunta-lhe Pilatos.


O Judeu apenas crava seus olhos nos olhos negros da autoridade romana. “Eu sou a verdade” é o que o filho do homem já havia dito e não precisava repetir. É nos atos que a verdade se revela. Mas por que, então, enunciar que o Cristianismo, como vinha dizendo, sustenta-se no medo e na angústia da morte?


***

A inteligência turca, que já provou seu valor no espírito de Averrois, cujos comentários de Aristóteles, copiados por Judeus e por eles trazidos a Europa, vieram a implodir o espírito medieval em tal proporção que, a partir daí, a renascença veio a florescer: na escolástica, no dia em que São Tomás propôs refutar o espírito grego, aristotélico, encarnado na palavra de Averrois.


São Tomás, conhecido por seus confrades como “a toupeira da Sicília” graças ao porte atarracado e pela sua testa tão lustrosa quanto vasta, não poderia encarar pior nem mais terrível inimigo. Ironicamente, fecundou as universidades e a Igreja com espírito aristotélico, e tanto mais o fez quanto mais superou seu inimigo, Averrois.


O verdadeiro inimigo de Tomás era a inteligência, a razão. Tentou destruí-la sim, mas escolheu a arma errada, a própria razão. Com isso apenas fortaleceu-a, infundindo vida a um debate já superado e esquecido, um problema por que Santo Agostinho já havia passado e resolvido, embora o tenha resolvido abandonando-o, ao perceber que tal problema se encontrava além da força do intelecto humano. Provar a fé pela razão. Só a intuição imediata provava Deus, do mesmo como provava a alma. Se os cientistas hoje chamam de consciência o que antes chamavam alma, isso não importa, conquanto não caiam no infantilismo de supor que ao trocar o nome se trocou o objeto designado.

Ensaio II: O cogumelo, o homem e Deus

Também algumas drogas revelam a origem divina do mundo. A esse respeito recomendo a todos uma poção muito especial, usualmente ingerida por alguns maconheiros no interior de São Paulo, o chá de cogumelo. Poucos o experimentaram, e todos os que o fizeram são unânimes em declarar seus maravilhosos efeitos no espírito, e os movimentos imprevistos que na alma provoca. As rodas formadas por homens cultos e de bom senso, quando testemunham tais relatos, aprovam e validam seus efeitos, sem contudo exagerarem a medida de sua estimação. Mas repito, o uso é recomendado em homens dotados de cultura, desinteresse e bom senso, não em homens inferiores, digo: gente mesquinha e feia. “Mas por que haveríamos nós de estender nossos pensamentos às pedras e aos porcos?”.

O que há, pois, de divino no cogumelo? Ora, nada é divino no cogumelo. O cogumelo pertence ao mundo, assim como nós mesmos. “Assim como nós mesmos?” Pergunta-me um certo médico de almas que há anos travei palavra. Sim, respondo eu, com a tranqüilidade que advém da certeza: sim, minha amiga, minha irmã, minha semelhante, sim, o cogumelo pertence ao mundo tanto quanto nós.

E em que medida pertencemos ao mundo? Eis a velha pergunta! Sempre a velha e impertinente pergunta, que incomodou a Sócrates e, depois dele, todos aqueles que foram realmente filósofos. Decrépita, a velha questão afigura-nos caduca; mas, disfarçada em seus mantos rotos, cheirando a naftalina, ela ofusca o Sol do conhecimento, o qual, uma vez descoberto, aqueceria a alma do mundo: sua sombra atualmente encobre os territórios e as nações. Vasta sombra do passado, que nossos olhos já nem notam por força do costume, infunde o frio em nossas fibras e torna em gelo toda a atmosfera que envolve a civilização humana.

Peço desculpa se meu estilo lhe soar afetado, mas não vejo com que palavras eu poderia tratar de tão sério assunto sem que lhes pareça gabolice de minha parte. O cogumelo assemelha-se ao homem sim. Como este, é uma ponte, um túnel, um buraco na existência por onde o olhar da consciência entreve Deus. Dizendo mais precisamente, vemos a marca das divinas mãos na geometria da existência. Reconhecemos, com o uso do cogumelo, a magnífica obra que é a natureza, e a participação desta no coração de Deus, como a sua obra mais acabada. A razão, por outro lado, justamente por ser não plenamente acaba, é um espiral rumo ao infinito. Deus é o horizonte da razão, quanto mais se aproxima mais ele se mostra além.

Ensaio I

Sinto um fluido gélido correr pelas minhas espinhas, pois novamente volto a escrever. As palavras vão fugindo pelos meus dedos e vão se tornando palavras, frases, períodos simples e compostos, e, aos poucos, gota a gota, vão me inundando de espanto.

Queria ser tantas coisas e acabo por palavras! Oh! Maldição divina. Oh! Maldição humana! - gritam todos aqueles que não ousam se espelhar em sua própria produção literária. Seus textos são grandiosos e belos, ou melhor, grandes e belos apenas para si mesmos. No instante da escrita, no instante da inspiração, apaixonam-se pelo seu próprio sentimento, que de modo algum passam para o papel. E após alguns ciclos lunares, relendo o que eles próprios escreveram como se fosse um texto alheio, os nossos poetas constatam, muito a contragosto, que aquele sentimento tão nobre e profundo esvaiu-se do papel, ou melhor, nunca lá esteve; tudo o que encontram ali é um sentimento, um sentimento que a franqueza de suas consciências não lhes recusam: a vergonha. Agora, coram a face diante de si mesmos, vexados daquilo a que eles mesmos deram origem, seus próprios filhos, seus próprios textos.

Creio, contudo, que tal frustração não seja motivo para que a consciência se aplique chibatadas. Só alguém muito desmedido em sua vaidade o faria; alguém que se julga a léguas de distância daquilo que verdadeiramente é.

“Amais vossas produções, elas provieram de vós, são vossos filhos!” Nada mais falso que semelhante argumento, como de certa feita provou um filósofo mui astucioso ao cuspir no chão. “Vede, isto também saiu de mim”. Foi com estas palavras que rebateu o argumento de um homem que lhe insistia na sua obrigação de amar seu próprio filho, o qual segundo reza a lenda, era verdadeiramente um imprestável.

Alguns dizem que saber se expressar por palavras é um modo de cultivar em si mesmo a alma. Nada mais mentiroso; basta observar o tagarela. Sim, há os tagarelas da escrita. Coisa muito diferente do grande orador. Oh! Com que eloqüência Cícero encantava a assembléia nos tempos em que César se havia feito imperador! Com sua voz suave, inspirava o público, que lhe sorviam as palavras com prazer ainda maior do que tiravam de um bom vinho gaulês; seus discursos apontavam para grandes horizontes, novos territórios que haveriam de estar sob o jugo da supremacia romana e de onde os soldados voltariam trazendo o ouro e toda a sorte de riquezas, as quais seriam expostas aos olhos de Roma na grande marcha triunfal dos regressos.

Cícero sabia criar no coração dos ouvintes profundas esperanças, ou tirar sorrisos nas faces boquiabertas do público, sorrisos que transpareciam inteligência, dada a agudeza de seus ditos, a sutileza de seus trocadilhos, engenhosos, fáceis, naturais e graciosos a um só tempo, tal como ocorre com a espontaneidade divina, em que o acaso e a perfeição se enlaçam, como se vêem nos gigantescos rochedos esculpidos pelos ventos e pelas águas do mar e que formam verdadeiras esculturas naturais talhadas pelo punho poderoso de Deus. Essas obras naturais são tão sublimes que enchem nossos olhos, arrastando nossa imaginação e intuição na crença de Sua presença e Sua onipotência.

7.20.2006

As coisas simples

Quantas pessoas sabem dar o devido valor às coisas simples da vida? Isso é importante? Por que dar valor às coisas simples da vida? É sobre este assunto que eu falarei hoje, numa linguagem franca, simples, sem afetação.

Existem muitas verdades sobre a vida que não são complicadas nem merecem ser alvo de debate. Todo mundo as conhecem e, assim sendo, pode até parecer besteira falar sobre elas. Mas não é.

Isso por que vivemos tão atarefados, tão cheios de pequenas preocupações e picuinhas, que acabamos por esquecer temporareamente essas verdades. Elas estão guardadas em algum canto de nossa memória. Mas às vezes estão há tanto tempo guardadas, que se encontram empoeiradas, esquecidas, jogadas num canto escuro de nossa mente. E lembrar dessas verdades é como abrir uma janela. Sim, essas verdades nos transportam a uma existência mais verdadeira, mais digna, mais feliz e melhor.

No post abaixo disse algumas verdades sobre a procriação e sobre a dificuldade que é ter filhos. Quero crer que as pessoas só tem bebês "sem querer", quando estoura a camisinha, ou a tabelinha não funciona ou quando o calor do momento leva o ser humano, essa frágil criatura, a transar sem proteção.

Mas essa teoria é furada, ou melhor, não serve como regra, pois são inúmeros os casais que têm muitos filhos. Ademais, essas explicações são insuficientes para explicar a existência de um segundo, ou mesmo terceiro filho e assim por diante.

É compreensível que um casal tenha um primeiro filho planejado: podemos esperar tudo da ingenuidade humana. Só alguém muito inconsciente do trabalho que uma pequena criatura nos dá se atreveria a executar tamanha lambança. Mas um segundo filho?! Nada justifica!

Talvez a reflexão que se esconda por trás deste descalabro seja algo assim "Já que minha vida está um bosta com o primeiro filho, deixa eu chutar o pau da barraca de vez e ter o segundo, o terceiro, etc." Resumindo: "Já que estou no inferno, irei abraçar o capeta".

Não queridinho, não estou propondo o fim da espécie humana, estou apenas discutindo um assunto que eu adoro, a burrice de nossa fraca e miserável espécie, cujo único dom é o mesmo dos porcos: um orgasmo demorado. (Aliás, neste quesito os porcos vencem, conforme sustentam a maioria dos almanaques.

Desprezar a burrice humana, isto é, a minha, a sua e a dos outros, é a coisa mais burra que alguém pode fazer. Sim, o pior grau da burrice é não reconhecer a burrice própria e alheia. O mais incrível é que este gênero lastimável de burrice é o que reina. Pergunte a um médico por exemplo quais as razões da crise finaceira internacional e o verá estufar o peito para falar asneiras.

Vejam um outro exemplo: os historiadores. Quase todas as suas explicações sobre os eventos históricos não levam em consideração a burrice. A história da humanidade é uma praticamente uma sucessão de burrices mais ou mesnos erráticas. Napoleão invadiu a Russia por burrice. O mesmo podemos dizer de Hitler. Oh! Maravilha! A estupidez humana já salvou a humanidade inúmeras vezes!

O grande Renato Russo canta:
"Quantas chances desperdicei, quando o que eu mais queria era provar para todo mundo que eu não precisava provar nada para ninguém". Veja, esta é uma frase lapidar, linda e serve para qualquer adolescente. Portanto, é verdadeira para adolescentes.

Zezé de Camargo, em sua simplicidade sertaneja, compôs a mais bela música romântica
jamais feita no Brasil:

"Você é minha doce amada, minha alegria,
meu conto de fada, minha fantasia,
a paz que eu preciso para sobreviver"

Vejam que bela letra: simples, bonita, sincera e exata. "Mas não é exagerada?"

Não. É apenas a expressão do sentimento da paixão. Ele conseguiu transmitir com exatidão o que é este sentimento. Toda a paixão é meio brega. Chico Buarque, que compôs músicas inteligentíssimas, é incapaz de compor uma música como essa. Talvez seja por que Chico Buarque é sobrinho do dicionário. Só um homem nascido da terra, em um berço simples, dotado de pouca cultura literária e grande capacidade de escutar o coração, pode compor uma música tão boa assim. Algumas partes são verdadeiramente filosóficas.

"É o amor, que mexe com minha cabeça e me deixa assim,
Que faz eu pensar em você e esquecer de mim"

O giro entre sujeito e objeto, tão vastamente tratado atualmente em centenas de páginas pela fenomenologia, pode ser resumido neste pequeno fragmento. Mas a relação sujeito-objeto é o que há de menos importante. Nessa música encontramos a essência pura e destilada do amor paixão, e do próprio amor. O amor é justamente isso, é esquecer de si próprio, é uma porta aberta ao mundo. Quando a abrimos, sentimo-nos ventilados, podemos respirar com gosto. Sem o amor, nossa vida é um quarto escuro.

Filhos dão trabalho sim. E dizem que as mulheres encontram no filho a substituição do falo, isto é, do pinto, isto é, da pica, isto é, do cacete, isto é, do caralho. Mas isso é mentira, hipótese infundada por psicanalistas provalvemente para "chocar" os outros. A verdade é que o homem é ambíguo, vago, perdido, sente-se atraído e repelido pela mesma coisa. Isso é dito tanto pela filosofia hermética Egípcia, de onde Newton encontrou a inspiração para a lei da atração e repulsão dos corpos, quanto por Parmênides, que considerava Afrodite e Marte as duas forças essenciais do Cosmos, responsáveis pelos seres e unirem e se afastarem. E se quiser buscar o princípio no Yin e Yang, já está lá. O que ocorre, portanto, é que os pais gostam e não gostam de seus filhos. Uns mais gostam do que desgostam; outros, o contrário. E isso em todos os graus. Tem até mesmo os que não gostam absolutamente dos filhos. Tem de tudo, e a maioria fica na média.

7.17.2006

Uma conversa franca

Exponho aqui um diálogo curioso certa vez travado entre uma mãe e seu pequeno filho de cinco anos. As crianças nessa idade, como é sabido, fazem muitas perguntas um tanto quanto inconvenientes.

- Mãe, Deus existe?

- Olha meu filho, eu creio que não.

- E para onde vamos quando morremos?

- Para lugar nenhum, meu filho.

- Como assim?

- Morreu, acabou tudo. Quando uma pessoa morre, é para sempre.

- Mas por que é assim?

- Por que é, meu filho. Tudo no mundo passa, já dizia Heráclito. Um romano ilustre disse que a vantagem de morrer e nunca mais ter que morrer outra vez.

- Quem disse?

- Deixa para lá.

- Então quer dizer que eu nunca mais vou ver Pinguinho, o cachorrinho que morreu?

- Não. E pior ainda, se eu morrer também será para sempre. E o mesmo com seu pai, seus irmãos e seus amiguinhos e amiguinhas.

- Então por que você me colocou no mundo, mãe?

- Que pergunta estúpida, meu filho, você nasceu “sem querer”. A camisinha estourou.


Nisso entra o pai na conversa, censurando a mãe.

- Não fala essas coisas para o Dudu querida. – e virando-se para o pequenino, com voz muito suave - A mamãe não falou certo, meu filho. Não foi que você nasceu “sem querer”, foi sem ser planejado, mas você é muito bem vindo. Quando ficamos sabendo que sua mãe estava grávida, não hesitamos um minuto em te abortar.

- O que é aborto?

- É quando a mamãe mata o filhinho ainda quando ele está dentro da barriga.

- E por que é que as pessoas fazem isso, papai?

- É por que, meu filho, crianças dão muito trabalho para os pais. Tipo assim... acabam com a vida dos pais. Lembro que depois que você nasceu nossa vida piorou muito, falta dinheiro, não podemos sair juntos porque não temos aonde te deixar... nos primeiros meses você chorava muito, e mal podíamos dormir, e como se tudo isso não bastasse agora temos pouco dinheiro para nos divertir. Mas saiba que nós te amamos muito, e a alegria que você nos dá compensa tudo isso, mesmo sabendo que nossa vida se tornou um inferno.

- Obrigado papai. Eu também te amo.

A mãe parece ficar enfurecida com a resposta do pai.

- Não mente pro menino Jorge. Se não ele vai crescer e vai se tornar um hipócrita como qualquer outro, ou vai se tornar um boçal, com uma visão errônea sobre o mundo. Depois que você nasceu, meu filho, seu pai quis terminar a relação comigo.

- Lógico, você engordou quinze quilos, e seus peitos caíram.

- Você que é um brocha! "Buceta é tudo igual" pra lá, "buceta é tudo igual" pra cá, era o que você sempre dizia, lembra-se, seu idiota! E foi só eu engordar um pouco e pimba.

- Mamãe e papai, disse a criança com os olhinhos úmidos de lágrimas – parem de brigar. Desse jeito parece que vocês não me amam. Parece que eu não sirvo para nada! Só para dar trabalho.

- Mentira meu filho, papai gosta muito, muito mesmo de você. Tanto que ele continua comigo só por que eu uso você para chantageá-lo.

- Como assim, mamãe?

- Seu pai, meu filho, ele espera que você faça na vida tudo aquilo que ele mesmo foi incapaz de fazer, você é a esperança da frustração dele.

- Se ele se separar de mim, ele sabe que eu vou jogar você e sua irmã contra ele, vou demonizá-lo. E daí você vai ter ódio dele e provavelmente vai acabar virando gay.

- Gay?

- Isso mesmo.

- Mas o que é gay?

- Gay é quem gosta de dar o cu para outro homem, e gosta de comer o cu de outro homem?

- Mas cu é de comer mamãe, é um tipo de bife?

Nisso o pai e mãe caem na gargalhada, o pai chora de rir e dá um pequeno beijinho na testa do filho, a mãe balança a cabeça olhando a pequena criança com ternura.

- Não, meu filho, comer é sentido metafórico. Comer cu quer dizer enfiar o pinto no cu.

- E o cu é por onde sai o cocô, mamãe?

- Isso.

- E é bom quando o pinto entra no cu?

- Mas que meninho curioso!

- Olha, meu filho, gay gosta.

- E você mamãe?

- Eu não. Seu tentou um monte de vez, mas eu só deixei uma vez, logo depois que casamos.

- É bom papai?

- O quê?

- Enfiar o pinto no cu?

- Ah, bom. Sim, é uma delícia.

- Eu posso enfiar no seu, mamãe?

- Bate nele, Jorge. Olha as coisas que esse menino anda falando!

Nisso o pai tira a cinta e dá uma surra no filho com propósitos educativos. A empregada, que estava presente, vai para o banheiro para vomitar. Dudu cresce e vira um rapaz bonito, foi, dois anos atrás, o campeão do Estado de São Paulo em estilo peito. Dias atrás fiz uma entrevista com ele, perguntado o que ele achava de seus pais, que atualmente estão velhinhos.

- Ai, ai, ai, ai, ai. Aqueles lá são figuras. Sempre daquele jeito.

- Mas o tipo de coisas que eles falavam para você não te perturbou? Você não acabou tendo uma infância e juventude problemáticas?

- Minha cara Santa Puta, isso que você está me falando só acontece no mundo de Cláudia. Ou no mundo dos psicólogos... Tá bom vai, confesso, talvez as coisas que meus pais me falavam fossem prejudiciais a uma criança de constituição mais delicada. Mas qualquer coisa é prejudicial a uma criança de constituição delicada e, se não for os pais, o próprio mundo se encarrega de fazer dela uma “problemática”, como você mesmo diz.

- Mas, Eduardo, o fato de você acreditar na morte tão cedo não trouxe nenhum impacto?

- Santaputa, larga de ser ingênua. Os filhos não acreditam em tudo o que os pais dizem. Eu por exemplo, continuei acreditando que havia vida após a morte até os oito anos, quando finalmente vi que eles estavam certos, que a religião é só uma forma de conforto e controle social. Apesar disso, do ponto de vista moral, eu sigo o cristianismo, por achar que não há uma moral melhor. Realmente, não acreditava em tudo o que os meus pais diziam. E cá entre nós – disse ele como que cochichando – eu continuei acreditando que cu era coisa de comer, assim como bife.

- Sim, realmente é um prazer te conhecer, Eduardo. Qual a sua posição sexual preferida?

- Mas que pergunta boba, Santa. Você está muito perdida hoje. Olha, você é péssima entrevistadora. Eu digo isso porque sempre li seu blog e sou um admirador seu, mesmo sabendo que você é muito mentirosa, e falsa-não-moralista, se é que me entende. Acho que às vezes você dá muito valor para coisas fúteis e inúteis. E fica falando de cu, de rola, de um modo pouco sensual. Sim, desculpe dizer isso Santa, acho até divertidas algumas coisas do seu blog, mas muito pouco sensual, isso talvez reflita sua vida.

Desculpem pessoal, mas tive que cortar a entrevista. Como todos sabem não aceito críticas, principalmente se elas são construtivas, como no caso acima. Portanto, até a próxima.


Beijundas.

5.15.2006

Alguém que se preocupa.

A "a noni má" perguntou se eu estava morta. Fiquei muito tocada por saber que alguém neste mundo se preocupa comigo. Então estou escrevendo este post apenas para dizer que estou mais viva do que nunca. Tão viva que mal tenho tempo para escrever entre...entre... uma e outra. Entendeu, né, queridinha?

A beleza da mulher dura pouco, devo aproveitar. Daqui poucos anos estarei com trinta, o começo da decadência. Então talvez eu tenha mais tempo para blá, blá, blá. Por enquanto, eu só quero amar, só quero amar, só quero amar. De jeito maneira, não penso em dinheiro. Quero amor sincero...

Tudo bem, falo a verdade, é preguiça, é o sentimento de que tudo já foi dito, e melhor dito. (sentimento fácil e falso). Ainda há muita coisa inútil a ser dita. E, mais ainda, as coisas importantes da vida sempre devem ser repetidas. É como o sexo. Não é porque todas as posições já foram feitas que devemos deixar de fazer, certo?

Meu Deus! Estou querendo o quê? Apenas mandar um beijão para todos vocês.

Beijundas.

2.14.2006

Manual Santaputa: instruções de riso (repost)

O filme já estava quase no fim quando o Juca perguntou a Samuca:

- Mas é de comédia?

- Sei não...pode ser...parece que é de comédia mesmo...pega lá caixinha do filme, vamos conferir...

- E não é que é de comédia mesmo, como é que você descobriu?

- Intuição.

- Fala a verdade.

- Tá bom, eu conto. É que eu li um ensaio filosófico de Bergson explicando o que era o humor.

E depois que descobriram que o filme era de comédia, os dois gajos começaram a rir de todas as cenas do filme. (risos).

Para que isso não aconteça aqui, vou começar a colocar (risos) na hora que for para rir. Acho que é a melhor coisa que faço. Quem escreve não pode, infelizmente, ler em voz alta para o leitor, nem pode obrigá-lo a impostar o texto da maneira como gostaria que fosse lido.

Não falo à toa, aconteceu comigo. Lia muito Nietzsche aos quatorze anos (risos), e não percebia nem uma piada, nem uma nuance irônica. Imaginava o super-homem de Nietzsche como um bigodudo usando cueca vermelha por cima da roupa azul bem coladinha no corpo.(risos). E supunha que era por aguentar o ridículo de tal traje, que ele estava acima do bem e do mal. (risos).E eu levava tudo isso a sério, muitíssimo sério (risos). Nessa mesma época zombava de toda forma de compaixão, tentando convencer minha mãe a abaixar a remuneração da nossa empregada doméstica para meio salário mínimo (risos).

Então, prestem atenção na mamãe aqui, meus leitores: toda a vez que tiver escrito “(risos)” você imagina aquelas gargalhadas de seriados de TV. Isso mesmo! Agora um pouco de silêncio: estão escutando aquela última risada que insiste em continuar depois que todos já riram? É a do Berinjela, um negão gordo (risos) e bonachão, que gargalha todo descontrolado. E vai rindo, batendo as mãos na barriga, chacoalhando os ombros, perdendo o fôlego, chorando de tanto rir, se estribuchando inteiro, parece até que vai ter um troço. (risos).

Por ser usualmente o primeiro a rir, acontece vez ou outra do Berinjela rir na hora errada, de algumas cenas em que ninguém vê a menor graça (risos), com exceção do Juca, que nunca entende porra nenhuma, e só vê graça na própria risada do Berinjela (risos).

Então vamos treinar...só um pouquinho mais de adubo na imaginação...isso...pronto.

Agora dá uns cinco minutinhos para eu pensar numa piadinha qualquer. Lembrei de uma. É de mal gosto, mas serve. Eis:

- Mamãe, o que eu vou ser quando crescer?
- Nada filho, você tem câncer. (risos)

1.31.2006




Parte 2 A lhama

Segundo a imprensa da época, Dr. Pangloss teria sido vítima de um ataque cardíaco. Mas a mídia sensacionalista explorou todos os aspectos do caso, soltando o boato de que uma das ovelhas era, na verdade, o dragão do apocalipse. Mas o boato não durou muito tempo e a morte de Pangloss parecia já ter sido esquecida quando uma das revistas mais respeitadas lançou uma notícia bombástica, na qual se levantavam provas contundentes acusando a lhama de ter cometido o crime, e seria um crime passional.

Segundo a notícia, a lhama, tomada por uma violenta crise de ciúme por causa de uma Pata recém adquirida por Pangloss, o teria matado asfixiado com seu focinho, com a ajuda de um saco plástico, o que explicaria a ausência de hematomas. A nova suspeita reascendeu o escândalo. A verossimilhança da explicação acabou por dividir a opinião pública. O Brasil acompanhou emocionado o julgamento, até que a lhama, com auxílio dos melhores advogados, (ninguém soube como ela conseguiu dinheiro para isso) foi inocentada.

Dias depois já se encontravam em todas as livrarias a auto-biografia: “Dr. Pangloss e eu”, em que a lhama contava com pormenores todo o seu caso amoroso. De leitura agradável e fluente, o livro era o fiel retrato de uma paixão muitas vezes violenta e tumultuada, mas também cheia de lindas cenas românticas repletas de ternura e sedução. A noite enluarada em que Pangloss a desvirgina é uma das mais belas páginas de amor já escritas.

O livro logo se tornou um Best-Seller, e a autora vivia seus momentos de glória. Só ficava na Ilha de Caras, posando para fotos, sempre com um drink de guarda-chuvinha na mão. Não havia mais quem discutisse outra coisa nos cafés e nos bares que não fosse aquela invejável paixão.



1.20.2006


O Dr. Pangloss

Médico e ocultista, Dr. Pangloss foi uma das figuras mais controversas e mal compreendidas do século vinte. Tornou-se mundialmente conhecido pelas fervorosas defesas do ultra-pansexualismo, doutrina segundo a qual todos os objetos possuem sexo, bastando para isso procurar bem. Embora pouco se tenha divulgado, teve papel decisivo na revolução sexual nos anos setenta.

Em virtude de sua crescente influência sobre os costumes dos jovens, ganhou a antipatia dos grupos conservadores, que, buscando denegrir sua imagem, apelidaram-no Dr. Belzubu. O feitiço voltou-se contra o feiticeiro, e sua fama cresceu vertiginosamente, atravessando os mares, em direção a Ásia, a África e Oceania. Foi por estes tempos que se tornou conhecido com "o terror das paróquias".

A notícia de tão terrível inimigo da fé católica chegou aos ouvidos do papa, que, temendo maiores estragos, excomungou-o. Em razão disso, foi perseguido impiedosamente pelo organização Annus Dei, como um Rectus Infectum. Graças a sua perspicácia, fugiu de vários atentados terroristas, escapando de inúmeras bombas de água benta. Embora tivesse uma vida turbulenta, sem poder permanecer muito tempo em um mesmo lugar, nunca abandonou o trabalho, publicando inúmeros livros. Destaca-se a “História da Putaria Ocidental”, fruto de enorme paciência e vasta erudição.

Baixinho, gordinho, usando suspensórios e um elegante monóculo, tornou-se um ídolo pop. Apessar da fama, não foi plenamente compreendido em vida, como é comum em todo gênio. Foi detido pela polícia depois de ter sido pego em flagrante estuprando uma geladeira numa loja de departamento. No tribunal, Dr. Pangloss alegou que na verdade ele era a vítima, a geladeira é que o havia seduzido. Mas não foi capaz convencer o júri, posto que a geladeira era menor de idade. E assim o réu foi condenado a passar tristes anos na cadeia, período no qual escreveu: “Masturbação Mística”.

Depois de três anos de prisão, foi libertado no ano de 1975. Passou então sua vida quase no anonimato, trabalhando como jardineiro e vivendo recluso com seus dois filhos bastardos, Gilda, uma simpática débil mental, e Magno, o puto. Ninguém suspeitava que, por trás daquela vida calma, Dr. Pangloss estava em sua mais fervilhante fase de produção intelectual. Em segredo, tramava um mirabolante plano.

Com cinqüenta e quatro anos, em outubro de 1980, foi encontrado morto no quintal de sua casa, na companhia de três ovelhas, quatro galinhas d’angola, uma lhama e uma tartaruga, que se recusou a dar qualquer depoimento.

1.18.2006



"Esta obra tem por fim apresentar os Inquéritos (Historiai) de Heródoto e Halicarnasso, para que o Tempo não venha obliterar os grandes e maravilhosos feitos dos helênicos e dos bárbaros; e visa especialmente impedir que sejam esquecidas as causas que os levaram a guerrear entre si."

Heródoto



A Terceira Guerra Mundial.


A História do mundo sempre foi uma história de guerras e só mesmo a Poliana moça para acreditar que hoje em dia a coisa seja diferente. Repito, a História é uma história de guerras. Não apenas entre classes sociais, mas de raças, credos, grupos étnicos, guerras econômicas e até mesmo guerra de vaidades.

A próxima grande guerra será entre o Islã e o Mundo Cristão. Bin Laden apenas anunciou a vinda da Terceira Guerra Mundial. Protestos nacionalistas contra os mulçumanos já começam na Austrália, EUA e toda a Europa, e a jovem geração que hoje protesta amanhã estará no poder.

A guerra no Iraque nada mais é do que a segunda batalha, após o Afeganistão. Mas outras hão de vir e um mar sangue varrerá o mundo, como na profecia de São João.

Consciente de que uma declaração de guerra a um país mulçumano democrático acarretaria inevitavelmente a união final do Islã contra as potências cristãs, o Irã desafia o mundo, levando adiante seus projetos nucleares e afirmando que Israel não deveria existir.


Os Estados Unidos encontra-se, no caso Irã, entre uma faca de dois gumes. Se não atacar o Irã agora, verá o seu inimigo se fortalecer, como França e Inglaterra observaram de braços cruzados a ascensão de Hitler. O resultado de tal desleixo foi a Guerra mais sangrenta que a humanidade viu.

Os Estados Unidos da América não suporta uma guerra deste porte. O problema não consiste na dificuldade de invasão de todo território inimigo, o que é possível embora com grande dispêndio do tesouro americano e sobre-taxação de impostos. O ponto nevrálgico é, isto sim, a impossibilidade da manutenção do controle militar nas áreas invadidas. Restaria, portanto, uma única saída, a exterminação em massa do inimigo, mas esta solução é impossível sem o consentimento da opinião pública.

Mas haverá uma grande tragédia, que alterará os rumos da guerra.

Jerusalém será alvo da bomba mais poderosa do Islã, lançada pelo Irã*. Este será o preço que o mundo Cristão terá que pagar para que a opinião pública se coloque a favor do uso de seu arsenal nuclear, que será por onde virá a vitória derradeira, já que, repito, a manutenção do controle militar em todo mundo fundamentalista é impossível.

Haverá uma chuva de bombas atômicas no mundo islâmico. No fim da última batalha, o Islã se verá de joelhos, tendo sua população dizimada, reduzidas a tribos medievais localizadas em alguns oásis no interior do deserto. Todos os seus grandes centros urbanos estarão em ruínas, todos os cientistas mulçumanos, mortos, todos os poços de petróleo, tomados e divididos pelas grandes potências.

Suponho que a China se manterá neutra durante toda a Guerra, em troca de elevadas concessões. E sairá dela como a nova grande potência do mundo.

Na Europa a Guerra será civil, entre os habitantes de origem e os mulçumanos. Estes serão forçados a abdicar de sua religião, sob pena de serem colocados em Guetos em países Africanos pobres, sem recursos naturais e sem nenhum potencial de desenvolvimento. Os governantes de tais países os aceitarão a troco de uma soma de recursos econômicos que será injetado em períodos regulares. Mas para manutenção da “mesada”, esperará destes países um “bom comportamento”.

Terminada a Terceira Guerra, o mundo se polarizará em dois grupos. De um lado, América e Europa, e do outro, a Ásia, liderada pela China**. E o alvo de cobiça serão os recursos naturais.


* Pois dentre outros motivos, esta cidade se encontrará dentro raio de alcance dos “mísseis” que levarão a bomba, já os Estados Unidos se verá protegido pela distância geográfica.

** Neste panorama, o Japão será uma espécie de Cuba dos EUA.

1.16.2006

Nara (repost)

Num apartamento do centro velho da cidade, Nara e suas amigas bebiam vinho e conversavam. Depois de uma calorosa discussão sobre acolchoados, Débora tomou a palavra e desviou a conversa para outra direção, o seu filhinho, que completara seis meses na véspera.

- Vocês não imaginam o que é ser mãe. É mais forte do que a gente pode supor. Os seios da gente vão enchendo e enchendo, é uma coisa louca! Chega uma hora que parece que eles vão explodir. Tenho litros e litros de leite no congelador. - Aqui, Débora fez uma pequena pausa, encheu o pulmão de ar e arrematou, cheia de orgulho – Parece piada, mas já chegou acontecer de eu esguichar leite ao escutar ele chorando no bercinho.

As amigas ficaram embasbacadas, mas logo a conversa seguiu por outros rumos e a noite continuou cheia de alegria bêbada. Mas assim que Débora foi embora, Sônia não pôde se conter e faz esse comentário venenoso a respeito da amiga:

- Meu Deus! A menina jorra leite! Ui! Era o que me faltava essa. Olha, a Débora é muito legal, mas às vezes é um porre. Vê se pode, ficar se gabando de esguichar leite! Só ela mesmo para achar que há algum mérito em ser uma vaca leiteira.

As amigas riram e, sem que se dessem conta, cada uma passou os olhos pelos seios das outras. Mas logo elas perceberam o ridículo da cena e foram tomadas grande por grande mal estar: Vilma, uma das presentes, tinhas os seios tão miúdos que mais pareciam dois ovos fritos. Então Sônia, toda constrangida, tentou consertar de modo um tanto desastrado:

- De qualquer forma o tamanho do seio não tem nada a ver se a mulher vai dar pouco ou muito leite. Foi o que meu professor de biologia disse. Tem umas mulheres que têm só uma murchibinha, mas que dá leite que é diabo.

Não adiantou. A conversa esfriou e as amigas se despediram.

No meio do caminho pra casa, Nara pisou mais forte no acelerador. A inveja lhe corroia as entranhas: “Haveria ela de também esguichar leite?” Não conseguia sacudir de si a imagem dos bojudos seios da amiga esguichando fortes jatos de leite.

Chegando em casa, Nara se afundou na cama e sonhou com uma montanha morena, que era um gigantesco seio. No pico da montanha havia um gêiser, esguichando leite que subia em direção aos céus e caía peneirado em chuva branca, confluindo para umbigo, majestosa lagoa em cuja superfície nenéns-patos boiavam e brincavam abaixo de um arco-íris.

No dia seguinte, Nara olhava para seios de todas as mulheres que passava, tentando adivinhar o potencial leiteiro de cada uma. Ao ver uma mulher sem peito, ria por dentro: “Ha ha ha, essa murchibinha não enche uma xícara de café”. Mas logo depois a ansiedade e inveja voltavam a lhe apurrinhar. Chegou até mesmo a sentir raiva de Débora. Revia a cena, a cara orgulhosa da amiga, a fartura, tanto leite que até podia desperdiçar: “Quando ele chora, eu esguicho leite.”

Na noite deste mesmo dia, Nara persuadiu seu namorado a não usar camisinha: “Assim é mais gostoso amor”, disse ela com uma voz doce e sapequinha. Mas ele tentou relutar, e fez um breve discurso sobre sua impossibilidade econômica de sustentar um filho; mas ela insistiu “Vai, por favor, só hoje, assim é mais gostoso”.

Um ano depois, Nara estava toda orgulhosa, sentada numa cadeira, conversando com as amigas e esguichando leite goela abaixo do seu filho, uma bolinha rechonchuda sugadora de leite.

Manuel Parangolete

Embora tenha me linkado sem a menor cerimônia como "prostituta", seu blog é realmente bom, aprovado pelo padrão santaputa de qualidade.


1.13.2006

Tão bom que mesmo quem não gosta lê.

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